terça-feira, 14 de junho de 2016

Feito as mãos

FEITO AS MÃOS

Sentei para escrever um poema
mas os vapores do gás lacrimogêneo
jogado nos adolescentes
entraram por debaixo da minha porta
irritaram tanto meus olhos
que não enxergavam mais papel algum
não acreditavam mais em papel algum
Levantei da cadeira
botei o lenço e o vinagre na mochila
e tive que deixar a caneta de lado

Sentei pra escrever um poema
mas a lama da Vale
chegou ao mar das minhas palavras
destelhou minha casa
manchou meu caderno
engoliu tudo que eu tinha escrito
Tentei canetas de todas as cores
mas nenhuma escrevia mais
sobre essa tonalidade dolorida de marrom
Levantei da cadeira
e tive que deixar a caneta de lado

Sentei pra escrever um poema
mas o cortejo pequeno
velando mais um jovem negro assassinado
sob olhares indiferentes
passou na minha janela
me fez levantar da cadeira
e deixar a caneta de lado

Sentei pra escrever um poema
mas tentaram roubar a infância
de uma criança na minha frente
outra vez
a violência adulta foi tanta
que as folhas se espalharam pelo quarto
e não conseguia juntar de novo
meus pedaços
Levantei da cadeira
brinquei com ela no chão
por algumas horas
deixando a caneta de lado

Sentei pra escrever um poema
mas lembrei da piada homofóbica no futebol
do comentário machista no bar
e da linha que liga quem falou
à lampada quebrada nos corpos na rua
aos assédios
a tantos crimes de ódio
Levantei da cadeira
e comecei uma treta
que ainda não acabou
e acabei deixando a caneta de lado

Sentei pra escrever um poema
mas a nova lei que o Congresso aprovou
martelou todos os versos
interditou juridicamente as metáforas
A canetada tirou a caneta da minha mão
e me fez levantar da cadeira

Sentei pra escrever um poema
mas tinha uma brecha
na agenda da escola ocupada
Arrisquei e toparam
Levantei da cadeira
fiz uma oficina sem nunca ter feito
falamos de tudo que nos tira da cadeira
fomos junt@s pra rua
aprendi mais que ensinei
com a caneta de lado
fizemos um poema
e era verde
como os olhos da meninazinha

(Lucas Bronzatto)

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