quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo

Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
Na noite passada manifestantes foram detidos
e transportados em ônibus com destino ao passado
Passado que não passou, ditadura que dura
ainda um mesmo dia, 1º de abril de 64, 2013
64 presos, 200 levados pra delegacia, talvez mais

Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
Os policiais que protegem os bancos e seus vidros
que mantêm a ordem pra injustiça se reproduzir em paz
que matam e fazem desaparecer nas favelas
que se irritam quando não se mira no peito dos manifestantes
os tiros de balas de metal
que atiram pertences em caminhões de lixos
comemoraram com orgulho no café no batalhão
cada um dos fichados por formação de quadrilha,
danos ao patrimônio e pelo crime hediondo
de tentar fazer da casa do povo a casa do povo
numa noite com 200 levados pra delegacia, 64 presos
num dia que já dura 49 anos
doi-codi
dói-choque

Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
e me deu vontade de quebrar o vidro
da televisão que mentia a cada cinco segundos
a cada frase com a palavra infiltrados
a cada tentativa de justificar a truculência
Como fez todos os dias daquele dia que começou em 64
e teve 64 presos quando anoiteceu em 2013

Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
As lágrimas de ontem evaporaram, condensaram
e caíram sobre a cidade
Choveu o dia inteiro
Aqui, cada lágrima que a violência do Estado arranca
guarda um rio de dor represado
carrega os mais de dez mil mortos pela polícia em dez anos
e outros tantos mais
por isso às vezes o Rio amanhece chorando desconsolado

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Poema em cima da pedra

Nunca tinha escrito um poema em cima de uma pedra
Escrever em cima de uma pedra, descalço,
é sentir nos pés e nas pernas
o mundo como ele é:
duro
áspero
dolorido
imenso
sem nada que alivie

Os musgos verdes que brotam na base das pedras
esperançosos
são poemas que o mar traz
O mar é insistente diante da dureza das pedras

como os poetas são insistentes diante da dureza do mundo

(Lucas Bronzatto)



sábado, 28 de setembro de 2013

Quando os pacientes perderem a paciência

Quando os pacientes perderem a paciência*

Ninguém mais vai morrer na porta dos hospitais
Nenhum desrespeito será tolerado
Não existirão mais farmácias privadas
nem planos nem seguros
pois será proibido pagar por saúde
quando os pacientes perderem a paciência

O lucro não vai mais definir doenças
e ninguém mais vai engolir junto com os comprimidos
as péssimas condições de vida e trabalho
porque não haverá mais opressores e oprimidos
quando os pacientes perderem a paciência

Não existirão propagandas de remédios nem de alimentos
Será tamanha a clareza do cidadão sobre seu corpo
que a palavra prescrição será abolida do dicionário
Todo e qualquer tratamento será decidido em conjunto
quando os pacientes perderem a paciência

Muitos intelectuais ficarão sem chão
ao verem que o problema central não era de administração
que as grandes soluções não eram humanização, formação,
avaliação, regulação, negociação
Ficará claro que o melhor dispositivo de gestão é a revolução
quando os pacientes perderem a paciência

Todo contrato de trabalho será digno
Fundações, O.S., EBSERH, serão apenas letras
e palavras indecifráveis de papéis amarelados
no museu de nosso passado precário
quando os pacientes perderem a paciência

Não haverá mais abismos nem hierarquias
nem gritos nem silêncios nem prisões nem indiferenças
Os pacientes é que serão os deuses
quando perderem a paciência

Quando os pacientes perderem a paciência
numa reunião qualquer do centro comunitário do bairro
serão decididos os rumos da ciência

(Lucas Bronzatto)

*versão do belíssimo poema de Mauro Iasi “Quando os Trabalhadores Perderem a Paciência”

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Playa

Playa

Um argentino com um violão imita Joaquin Sabina
Chilenos fazem malabares
Uma vaca passa e vira atração turística
Um menino boliviano passa
oferecendo água quente para mate
e volta equilibrando quatro garrafas térmicas
uma de cada cor
Batem ondas de água doce
Um estadunidense passa tomando Inka Cola
Tomo mate de erva argentina com bomba brasileira
cuia peruana e garrafa térmica boliviana
querendo tocar uma canção cubana em algum violão
Um grupo de argentinos sentados numa canga baiana
queima um palo santo andino
Um casal de franceses passa vestindo roupas peruanas
tecidas à mão e comem salchipapas
A areia suja os chinelos
Um brasileiro toca um samba antigo num charango boliviano
Uma colombiana lê um livro uruguaio sobre a América Latina
e se indigna a cada página ensanguentada que vira
As nuvens estão tão perto que fazem sombra nas montanhas
Cholas passam levando mercadorias para seus comércios
As vendas vendem vinho chileno, fernet e cerveja boliviana
Quando o sol se vai todos vestem suas blusas de frio
e voltam às barracas

Fronteira é uma palavra
de algum idioma que não se fala aqui
numa praia na Bolívia
que não tem saída para o mar

(Lucas Bronzatto)


Isla del Sol, Bolivia


Isla del Sol, Bolivia

Isla del Sol, Bolivia

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Crônicas e Agudas

Crônicas e agudas

1.
Cada ano 80 mil crianças em todo o mundo
morrem vítimas de doenças evitáveis
Nenhuma delas é cubana
Têm razão, isto não é um dado estatístico.
É um poema vivo

2.
Em Cuba não há:
visitas de representantes da indústria farmacêutica
congressos e viagens pagas pela indústria farmacêutica
bonificações por prescrição da indústria farmacêutica
estudos confiáveis encomendados pela indústria farmacêutica
Os do aeroporto de fortaleza estão certos:
os escravos cubanos são mal fôrmados               

3.
Doutora, eu não me engano
sua vaia orgulha o feliciano

4.
Doutor, se eu não me engano
o diploma do seu filho médico é cubano

5.
Se temos algo a ensinar aos cubanos sobre atenção primária
são esses nossos tratamentos tapa buraco
para os adoecimentos do trabalho inoculados pelo capitalismo

6.
Se os médicos cubanos são escravos
se os jornalistas da veja são livres
alguém por favor me diz
onde assino minha carta de desalforria?

7.
Me perdoe se for preconceito
mas faltam médicas no Brasil com cara de empregadas domésticas,
não?

8.
Qual é o CID pra racismo?

9.
Antes de falar da pobreza em Cuba
olhe pro seu umbigo
mas olhe direito

10.
Advertimos ao Ministério da Saúde:
pintar a ponta do iceberg de vermelho
até nos distrai
mas não nos engana
Os sintomas persistirão
enquanto a saúde for mercadoria
(como o coro já dizia)

11.
Mais que mais médicos
só com mais rua
mas cuidado!
fiquemos longe desses vândalos do white bloc

e seus coquetéis xenofobov

(Lucas Bronzatto)

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Algumas das notícias que estão nas entrelinhas deste poema:

Itinerando com a Itinerância

O irmão e poeta Guilherme Salgado vem lançando seu livro Itinerância Poética em encontros cheios de poesia e beleza Brasil afora.
Parte desta aventura foi feita em um fusca e pouco a pouco é relatada para o mundo virtual em seu blog: www.itineranciapoetica.blogspot.com.br no qual também estão alguns dos poemas deste e dos outros livros que virão. No Sarau da Cooperifa, em São Paulo, o fusca foi pintado de poesia e deixei algumas palavras também, como se vê na foto abaixo.
Visitem o blog para conhecer mais de suas itinerâncias que logo logo romperá as desnecessárias fronteiras de nossa América Latina!


domingo, 25 de agosto de 2013

Tenho (Nicolás Guillén)

Tenho

Quando me vejo e toco
eu, João sem Nada ontem,
e hoje João com Tudo,
e hoje com tudo,
passo os olhos, olho,
me vejo e toco
e me pergunto como pôde ser.

Tenho, vamos ver,
tenho o prazer de andar por meu país,
dono de tudo que há nele,
olhando bem de perto o que antes
não tive nem podia ter.
Colheita posso dizer,
monte posso dizer,
cidade posso dizer
exército dizer,
já meus para sempre e teus, nossos ,
e um largo resplendor
de raio, estrela, flor.

Tenho, vamos ver,
tenho o prazer de ir
eu, camponês, operário, gente simples,
tenho o prazer de ir
(é um exemplo)
a um banco e falar com o administrador,
não em inglês,
não em senhor,
mas dizer-lhe companheiro como se diz em espanhol.

Tenho, vamos ver,
que sendo um negro
ninguém pode me deter
na porta de uma danceteria ou de um bar.
Ou então na recepção de um hotel
gritar-me que não há quarto,
um mínimo quarto e não um quarto colossal,
um pequeno quarto onde eu possa descansar.

Tenho, vamos ver,
que não há guarda rural
que me agarre e me prenda num quartel,
nem me arranque e me expulse da minha terra
no meio do caminho real.
Tenho que como tenho a terra tenho o mar,
não country
não railáif
não tenis não yacht,
mas de praia em praia e onda em onda,
gigante azul e aberto democrático:
enfim, o mar.

Tenho, vamos ver,
que já aprendi a ler,
a contar,
tenho que já aprendi a escrever
e a pensar
e a rir.
Tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
Tenho, vamos ver,
tenho o que tinha que ter.

(Nicolás Guillén, 1964)

tradução livre por Lucas Bronzatto

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Nicolas Guillén (1902-1989)
Poeta cubano, de vasta e bela obra, considerado o "Poeta Nacional" em seu país.