quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Necedad

Necedad (ou 'versos sobre os comentários ao apoio de Silvio Rodriguez a Dilma')

Te escrevo como quem saiu pra ir ao bosque
e demorou pra voltar
como quem viu a raiva nascer
depois da alegria
(é raro brasileiros dizerem seu nome)
escrevo de meu barco playa giron inventado
navegando em um mar de raiva


dizem que você e os seus não sabem o que é voto
dizem que seu apoio é pelo porto de Mariel
perguntam quem você é, em tom satírico
debocham que poucos cubanos saem do país
que se não apoiasse a Dilma te fuzilariam
dizem que a presidenta financia mais seu país
que o nosso
tinha que ser cubano esta desgraça, dizem
este lazarento, dizem
ninguém liga pra Cuba, dizem
que teriam vergonha do apoio de um cubano
mas não têm vergonha de dizer o que dizem


lamentei por instantes que os ouvidos deles
nunca tenham ouvido suas trovas
mas logo passou


há quem diga estas coisas por não saber
mas entre eles, Silvio
provavelmente também há gente
que faz nascer a dor que os anjos não curam
que se junta ao coro dos demasiados NUNCA
dos demasiados NÃO
gritados em nossos ouvidos há 500 e poucos anos
há gente apaixonada pelo mal gigantesco
há gente que concorda com o embargo assassino
concorda com o boicote ao Chico
gênio reconhecido mundialmente como você
há gente que ignora
que dos muitos milhões que somos
também são poucos os que conseguem sair do país
e provavelmente há entre eles
os que chamam aeroportos de rodoviárias
incomodados
com brasileiros que antes não voavam


me dão vergonha
mas há os que são assim
você os conhece
são o mesmo tipo de gente
que faz elogios ao capitalismo
tomando um mojito em Varadero
"olha como somos livres
olha como podemos viajar
olha quantos partidos temos
olha quanto podemos comprar
olha meu sabonete caro
olha quantos sapatos temos"


(e há debaixo de seus sapatos
sangue de trabalhadores
que eles ou seus pais ou avós ou bisavós
pisaram)


confundem ter com ser
e querem confundir a todos


muitos ali são como “los pitucos” do Benedetti
(às vezes uma greve arruína-lhes a alma)
por isso nem lhes dê ouvidos
é tanto ódio que nem um exército
de reparadores de sonhos consegue consertar
não merecem seu sol aceso
seu espaço sem fim


néscios de outra insensatez
te mandam calar a boca
sem nunca ter ouvido uma palavra sua
uma única nota
de sua voz pontiaguda
a cada 15 minutos alguém insiste em repetir
que você e os seus não sabem o que é voto
não leve-os em conta, Silvio
parte deles ficará 4 anos sem falar de política
depois do dia 27
(este tema tão presente nas praças cubanas todo dia)
e têm a audácia de chamá-los de alienados
defendem a democracia
defendendo o candidato que censura a mídia
e têm a audácia de chamar Cuba de ditadura
para entendê-los
é preciso ler as revistas semanais
do monopólio de imprensa de meu país “democrático”


te chamam de alienado
te chamam de escravo
te chamam de esquerda caviar
te chamam de inseto
(e não é uma mariposa branca)


a tristeza de nunca terem te ouvido
agora é ínfima


de “ilha-presídio” chamam seu país
não percebem
ilhados estão muitos deles
presos estão muitos deles

(Lucas Bronzatto)

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Pra quem quiser ler os comentários:
https://www.facebook.com/SiteDilmaRousseff/photos/pb.351338968253034.-2207520000.1414085501./782068238513436/?type=3&theater

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Pra quem quiser conhecer Silvio Rodriguez, aí vão algumas das músicas às quais faço menção no poema:
Dias y flores: https://www.youtube.com/watch?v=Ey4H5L6gd4E
El Necio: https://www.youtube.com/watch?v=bKr8guhNA1I
Segunda cita: https://www.youtube.com/watch?v=Duj-KbT6LLM
Demasiado: https://www.youtube.com/watch?v=1PR_uEtSffM
Por quién merece amor: https://www.youtube.com/watch?v=QB4fjWfZrGQ
Mariposas: https://www.youtube.com/watch?v=xVZXqSYk9D4

E o poema de Mario Benedetti: http://blogs.montevideo.com.uy/blognoticia_55665_1.html

Mediocre Idade


Mais uma arte de Lara Paixão, sobre um poema meu!

Bobo News

Nova versão em video do poema Bobo News, na voz da Alice Souto!

https://www.youtube.com/watch?v=As_5IxCzRy4&feature=youtu.be

terça-feira, 21 de outubro de 2014

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Purgatório

Purgatório

 (para Dani Santos)


Perguntam-me sobre poemas
não tenho respostas

As margens que comprimem esse Rio
de janeiro a janeiro
me deixaram mudo
Tão grandes feridas nas retinas
tornaram pequenos meus versos

Desmaravilhadores
desceram de seus helicópteros
saqueando minhas palavras
Do alto de seus edifícios empresariais
pescaram metáforas da minha garganta

Estilhaços de bomba incrustaram-se no céu
da minha boca
Prisão preventiva de ideias
Junto à saliva e ao sangue
dos tapas na cara dados pela realidade
cuspi frases inteiras

Graças aos pés fincados na rua
só foi embora o que era ingênuo
Por ora ficou esse mutismo
que se sabe passageiro
silêncio
incômodo
olhos que cicatrizam
e eu pé ante pé
juntando as palavras que sobraram
às pedras
e ao que brota no deserto

(Lucas Bronzatto)

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Manifesto Esquina do Tempo

Recebi do meu grande amigo Gabriel Bordignon este manifesto poético, uma resenha de meu livro Cantos Tortos. Com muita honra, compartilho com vocês, seguido de um poema, também de autoria dele:

Cildo Meireles - Cantos

manifesto esquina do tempo
local no qual acontecimentos casuais se encontram em diferentes sentidos. a coincidência é irmã mais velha por parte de mãe do deja vu.
o título do livro cantos tortos de meu amigo lucas bronzatto me lembrou uma obra de cildo meireles chamada cantos, na qual o artista cria um "vão", um espaço, no encontro (canto) de duas paredes de uma sala. ao pensar sobre essas duas obras me lembrei de outra expressão: horizonte vertical, acho que é o título de um livro, não lembro, mas ela caberia bem nesses cantos. 
 isso por sua vez me lembrou um trecho de marçal aquino, acho que do livro eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, em que ele escreve algo mais ou menos assim de tentar extrair sonhos das frestas da realidade. acho que é por aí. 
 a origem da obra de cildo é a história de um sonho que ele teve uma vez quando criança. o artista estava na casa da avó e depois do almoço resolvera tirar um cochilo. ele conta que se deitou, mas depois quando tentou se levantar não conseguia se mexer. estava paralisado e não conseguia emitir nenhum som. mas conseguia enxergar e ouvir tudo. de repente ele percebeu num canto do quarto, na diagonal da cama, que começou a sair mãos com unhas ultra pintadas, depois o rosto de uma mulher e depois ela por inteira. veio sorrindo na direção dele. parecia velha e estava muito maquiada. ela andou na direção dele e parou nos pés da cama. começou a levitar e pareceu encostar os dedos dos pés nos do artista. ele conta que rezou todas as orações que conhecia, e quando rezava salve rainha a mulher lentamente se afastou, mas sempre sorrindo, e voltou para o canto. aí ele recuperou o controle do corpo.
 acho legal dessa obra cantos que ela cria um espaço num ambiente doméstico, como se fosse uma metáfora de quebrar a rotina. e voltando ao horizonte vertical, ao criar esse espaço é como se criasse uma possibilidade - inesperada, porque foge da norma, não se vê muitas paredes assim - e o horizonte como símbolo da utopia, aquilo a ser alcançado. como diz eduardo galeano o horizonte como a utopia é inalcançável mas sempre podemos buscá-los, aquilo da importância estar na caminhada, no caminho, no meio (de duas paredes no caso rs mas não só, no meio dessas coincidências que foi o lançamento do livro do meu amigo, chamado cantos tortos que por sua vez é inspirado numa canção do belchior "eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês", eu ter estudado o cildo e me lembrar dessa obra, a gente ter escrito com mais dois amigos um poema chamado esquina do tempo etc)
 e a poesia entre muitas outras coisas é também isso de criar novas possibilidades para o uso doméstico das palavras. criar umas fendas na realidade pra gente extrair uns sonhos. criar uma brecha no discurso conservador, criar um buraco pra flor nascer do asfalto, facilitar um pouco né... criar um suspiro na respiração da mocinha, ou do mocinho, ou do homem ou da mulher que sofre... criar para conquistar, não no sentido imperialista... entende, amigo? Por que se você me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava, de olhos abertos lhe direi: amigo, eu me desesperava. e temos que gritar desesperadamente, antes que roubem nossa voz.         

poema em homenagem ao livro "cantos tortos": 



Existem alguns cantos onde o tempo se acumula

quem já esteve num metrô vai entender melhor o que quero dizer
ao descer as escadas e seguir para o embarque
ao longo da plataforma há alguns recuos
aqueles lugares onde alguns preferem aguardar o trem
- em vez de esperar com os pés na fita de segurança... -
o que eu queria dizer é que nesses cantos
com o vai e vem dos passageiros
um pouco de tempo acaba se acumulando
alguns minutos de alguém que passa correndo atrasado
sempre acaba se desprendendo e indo parar ali
também nos horários de pico quando a multidão se acotovela
o atrito dos corpos desprende um pouco de tempo
- que depois o pessoal da limpeza acaba varrendo sem querer
para esses cantos
ou mesmo se essa poeira de tempo cair nos trilhos
o rápido passar dos trens vai levantá-la e levá-la
a esses cantos, ou seja, é uma questão de tempo para esses minutos e segundos
- e há até relatos de quem já encontrou horas e dias inteiros –
irem parar (temporariamente) nesses cantos
mas esses não são os únicos refúgios de tempos desabrigados
eles também se acumulam nas dobras do sofá da sala
(de televisão, de espera)
nas juntas das pedras das calçadas, no meio fio
debaixo do banco das praças
nas guimbas, nas cinzas - há um restinho de tempo 
- as escadas rolantes dos shoppings, dizem, são lubrificadas com esse tempo
Que escorre e às vezes até prendem o cadarço na ânsia por mais tempo
- às vezes, dizem outros, caem uns respingos desse tempo nas sacolas de compra,
responsáveis pela momentânea satisfação nelas encontradas. 
o que eu queria dizer é que esses cantos funcionam como trincheiras
sacos de areia de ampulhetas quebradas que protegem contra a pressa diária
há vários tipos desses cantos, um deles é conhecido por cantos tortos
onde o tempo acumulado ricocheteia como uma bolinha de pinball
entre numa espiral, num torvelinho tipo desenho animado
e é atirado de volta ao fluxo dos passantes em outro estado físico
cristalizados em flecha que podem atingir o peito de quem passa
fazendo-o deter-se momentaneamente para talvez lembrar de algo esquecido
ou atingem de esgueio suas idéias mudando o rumo de seus pensamentos 
era mais ou menos isso que eu queria dizer pra vocês 
("...Este caminhar nos lembra não só a atenção distraída dos surrealistas, mas, também, singularmente, a noção freudiana de atenção flutuante, indícios de que pensamento e escrita também se desdobram à escuta do inconsciente. Caminhar, enfim, que é o da criança, particularmente da criança da 'Berliner Kindheit', parada na janela, esperando escondida atrás de um móvel, atrasada quando vai à escola ou à sinagoga, retirada nos cantos afastados do jardim público, enfim sempre hesitante 'nestes limiares' onde, como o diz com excelência Anna Stussi, 'o tempo se acumula'." Jeanne Marie Gagnebin, História e Narração em Walter Benjamin)

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Conheça os belos poemas e desenhos do Gabriel em http://cafeteiraitaliana.blogspot.com.br/
Grato, meu caro!

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Academia

Academia
Quanto mais o pensamento
debaixo da linha do equador
se alinha
ao fio desencapado da globalização
mais surgem conceitos “intraduzíveis”
eventos em hotéis
armários de sapatos
coleções de gravatas e de abismos
arquipélagos
e timbres de vozes às vezes suaves
às vezes engasgados
de tanto engolir a crítica


Acríticas vozes
acrílicas vozes


Fora da janela
onde o ar não é condicionado
o mundo degringola
intraduzível


(Lucas Bronzatto)