quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Esperança

Esperança

- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
(Mario Quintana)

Há dias em que o tamanho da tarefa pesa toneladas na cabeça
Há dias em que a realidade debocha do sonho
e é difícil conjugar verbos no futuro
dizer “amanhã”
dizer “venceremos”
Há dias em que não há onde se agarrar

Nesses dias – confesso – nunca sei o que fazer
enquanto espero pelo retorno dela,
meninazinha de olhos verdes
da pele negra
vestida de farrapos
com seu coração que bate por outras meninazinhas
sua pintura indígena no rosto
ela sempre volta
voando
fugida de algum jagunço de latifundiário

(Lucas Bronzatto)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Catarse

Catarse

A hora é de ir
Pra onde quer que se olhe
o que se vê pede coragem

É tempo de olhar de dentro
olho no olho do furacão
pé no chão
piso firme
punhos cerrados
O sonho soprará o caminho no ouvido

Sonhos mútuos
somos muitos
somos muito

Também é tempo de olhar pra dentro
queimar nossos lixos
arrebentar nossos vidros
quebrar nossos bancos e o que mais acomode
A hora é de incômodo
a hora é de ir
não há tempo pra perplexidade
os tempos são mesmo outros
e não há tempo a perder

A hora agora pede pressa
É preciso desacelerar o mundo

(Lucas Bronzatto)

domingo, 29 de dezembro de 2013

Multimídia II



Quantos anos há entre eu e você?
Quantas palavras antes destas?
Boletos? Boleros? Bilhetes?
Cartas de amor? Duas gerações? Mais?

Pulo a linha com as mãos ainda

como é que se resolve um tilt de máquina de escrever?
sem alt sem del sem control
sem controle sobre a máquina o homem se desespera sempre
e sempre é em vão
mais cedo ou mais tarde
a máquina controlará o homem
que iludido acreditará
que controla a máquina

os poetas não controlam suas máquinas de escrever
às vezes o barulho das teclas invade,
se escuta até a caneta rabiscando palavras soltas
na cabeça
há um pouco de infância no som e na bobina
marcas de quando brincávamos de escrever
e que hoje me ajudam a brincar com as palavras.

(Lucas Bronzatto)

na máquina de escrever que ganhei do meu avô Roberto.

Como foi o primeiro poema que escrevi nela, mantive os erros de digitação, de quem ainda tá aprendendo a mexer.

Multimídia I


emaranhado de estrelas cadentes 
que não caíram
viajam incandescentes

decadentes focos de luzes de cidades destruídas
faróis foram
fogueiras foram
lâmpadas foram

pontos de vista criam e recriam galáxias

dispor-se longamente a olhar
expor-se
longa exposição
luz
segundos
anos-luz
estrelas que nunca caem

(Lucas Bronzatto)

Poem sobre a foto de 
Rubem Abrão da Silva: Luzes da cidade em longa exposição

sábado, 2 de novembro de 2013

Viajantes

Viajantes

Estrangeiros
passageiros
Nada que se vê é nosso

Vidas abarrotadas e bagunçadas
dentro das mochilas

Rotas traçadas a lápis

Sonhos de que a vida fosse assim
para sempre
sem roteiro sem rotina
sem retorno

Estrangeiros
passageiros
companheiros
partimos todos
nas mochilas uns dos outros

sábado, 26 de outubro de 2013

Fora do Poema

A dor é real
Escorre sangue fora do poema

Lágrimas tímidas em nada adiantam
Sentir como se fosse na pele
não é sentir na pele
não é o bastante
nunca foi

Canalizar na caneta e calar
e colar palavras em murais
ecoar
e calar
melhor que nada, mas
nada que melhore

(Lucas Bronzatto)