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segunda-feira, 18 de novembro de 2013
sábado, 2 de novembro de 2013
Viajantes
Viajantes
Estrangeiros
passageiros
Nada que se vê é nosso
Vidas abarrotadas e bagunçadas
dentro das mochilas
Rotas traçadas a lápis
Sonhos de que a vida fosse assim
para sempre
sem roteiro sem rotina
sem retorno
Estrangeiros
passageiros
companheiros
partimos todos
nas mochilas uns dos outros
sábado, 26 de outubro de 2013
Fora do Poema
A dor é real
Escorre sangue fora do poema
Lágrimas tímidas em nada adiantam
Sentir como se fosse na pele
não é sentir na pele
não é o bastante
nunca foi
Canalizar na caneta e calar
e colar palavras em murais
ecoar
e calar
melhor que nada, mas
nada que melhore
(Lucas Bronzatto)
Escorre sangue fora do poema
Lágrimas tímidas em nada adiantam
Sentir como se fosse na pele
não é sentir na pele
não é o bastante
nunca foi
Canalizar na caneta e calar
e colar palavras em murais
ecoar
e calar
melhor que nada, mas
nada que melhore
(Lucas Bronzatto)
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
Na noite passada manifestantes foram detidos
e transportados em ônibus com destino ao passado
Passado que não passou, ditadura que dura
ainda um mesmo dia, 1º de abril de 64, 2013
64 presos, 200 levados pra delegacia, talvez mais
Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
Os policiais que protegem os bancos e seus vidros
que mantêm a ordem pra injustiça se reproduzir em paz
que matam e fazem desaparecer nas favelas
que se irritam quando não se mira no peito dos manifestantes
os tiros de balas de metal
que atiram pertences em caminhões de lixos
comemoraram com orgulho no café no batalhão
cada um dos fichados por formação de quadrilha,
danos ao patrimônio e pelo crime hediondo
de tentar fazer da casa do povo a casa do povo
numa noite com 200 levados pra delegacia, 64 presos
num dia que já dura 49 anos
doi-codi
dói-choque
Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
e me deu vontade de quebrar o vidro
da televisão que mentia a cada cinco segundos
a cada frase com a palavra infiltrados
a cada tentativa de justificar a truculência
Como fez todos os dias daquele dia que começou em 64
e teve 64 presos quando anoiteceu em 2013
Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
As lágrimas de ontem evaporaram, condensaram
e caíram sobre a cidade
Choveu o dia inteiro
Aqui, cada lágrima que a violência do Estado arranca
guarda um rio de dor represado
carrega os mais de dez mil mortos pela polícia em dez anos
e outros tantos mais
por isso às vezes o Rio amanhece chorando desconsolado
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Poema em cima da pedra
Nunca tinha escrito um poema em cima de uma pedra
Escrever em cima de uma pedra, descalço,
é sentir nos pés e nas pernas
o mundo como ele é:
duro
áspero
dolorido
imenso
sem nada que alivie
Os musgos verdes que brotam na base das pedras
esperançosos
são poemas que o mar traz
O mar é insistente diante da dureza das pedras
como os poetas são insistentes diante da dureza do mundo
(Lucas Bronzatto)
sábado, 28 de setembro de 2013
Quando os pacientes perderem a paciência
Quando os pacientes perderem a paciência*
Ninguém mais vai morrer na porta dos hospitais
Nenhum desrespeito será tolerado
Não existirão mais farmácias privadas
nem planos nem seguros
pois será proibido pagar por saúde
quando os pacientes perderem a paciência
O lucro não vai mais definir doenças
e ninguém mais vai engolir junto com os comprimidos
as péssimas condições de vida e trabalho
porque não haverá mais opressores e oprimidos
quando os pacientes perderem a paciência
Não existirão propagandas de remédios nem de alimentos
Será tamanha a clareza do cidadão sobre seu corpo
que a palavra prescrição será abolida do dicionário
Todo e qualquer tratamento será decidido em conjunto
quando os pacientes perderem a paciência
Muitos intelectuais ficarão sem chão
ao verem que o problema central não era de administração
que as grandes soluções não eram humanização, formação,
avaliação, regulação, negociação
Ficará claro que o melhor dispositivo de gestão é a revolução
quando os pacientes perderem a paciência
Todo contrato de trabalho será digno
Fundações, O.S., EBSERH, serão apenas letras
e palavras indecifráveis de papéis amarelados
no museu de nosso passado precário
quando os pacientes perderem a paciência
Não haverá mais abismos nem hierarquias
nem gritos nem silêncios nem prisões nem indiferenças
Os pacientes é que serão os deuses
quando perderem a paciência
Quando os pacientes perderem a paciência
numa reunião qualquer do centro comunitário do bairro
serão decididos os rumos da ciência
(Lucas Bronzatto)
*versão do belíssimo poema de Mauro Iasi “Quando os Trabalhadores Perderem a Paciência”
Ninguém mais vai morrer na porta dos hospitais
Nenhum desrespeito será tolerado
Não existirão mais farmácias privadas
nem planos nem seguros
pois será proibido pagar por saúde
quando os pacientes perderem a paciência
O lucro não vai mais definir doenças
e ninguém mais vai engolir junto com os comprimidos
as péssimas condições de vida e trabalho
porque não haverá mais opressores e oprimidos
quando os pacientes perderem a paciência
Não existirão propagandas de remédios nem de alimentos
Será tamanha a clareza do cidadão sobre seu corpo
que a palavra prescrição será abolida do dicionário
Todo e qualquer tratamento será decidido em conjunto
quando os pacientes perderem a paciência
Muitos intelectuais ficarão sem chão
ao verem que o problema central não era de administração
que as grandes soluções não eram humanização, formação,
avaliação, regulação, negociação
Ficará claro que o melhor dispositivo de gestão é a revolução
quando os pacientes perderem a paciência
Todo contrato de trabalho será digno
Fundações, O.S., EBSERH, serão apenas letras
e palavras indecifráveis de papéis amarelados
no museu de nosso passado precário
quando os pacientes perderem a paciência
Não haverá mais abismos nem hierarquias
nem gritos nem silêncios nem prisões nem indiferenças
Os pacientes é que serão os deuses
quando perderem a paciência
Quando os pacientes perderem a paciência
numa reunião qualquer do centro comunitário do bairro
serão decididos os rumos da ciência
(Lucas Bronzatto)
*versão do belíssimo poema de Mauro Iasi “Quando os Trabalhadores Perderem a Paciência”
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Playa
Playa
Chilenos fazem malabares
Uma vaca passa e vira atração turística
Um menino boliviano passa
oferecendo água quente para mate
e volta equilibrando quatro garrafas térmicas
uma de cada cor
Batem ondas de água doce
Um estadunidense passa tomando Inka Cola
Tomo mate de erva argentina com bomba brasileira
cuia peruana e garrafa térmica boliviana
querendo tocar uma canção cubana em algum violão
Um grupo de argentinos sentados numa canga baiana
queima um palo santo andino
Um casal de franceses passa vestindo roupas peruanas
tecidas à mão e comem salchipapas
A areia suja os chinelos
Um brasileiro toca um samba antigo num charango boliviano
Uma colombiana lê um livro uruguaio sobre a América Latina
e se indigna a cada página ensanguentada que vira
As nuvens estão tão perto que fazem sombra nas montanhas
Cholas passam levando mercadorias para seus comércios
As vendas vendem vinho chileno, fernet e cerveja boliviana
Quando o sol se vai todos vestem suas blusas de frio
e voltam às barracas
Fronteira é uma palavra
de algum idioma que não se fala aqui
numa praia na Bolívia
que não tem saída para o mar
(Lucas Bronzatto)
Isla del Sol, Bolivia
Isla del Sol, Bolivia
Isla del Sol, Bolivia
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