terça-feira, 14 de junho de 2016

Escola de Luta

Escola de Luta

Estudantes ocupad@s inventaram
cadeados de abrir celas de aulas
correntes de destrancar mentes
vassouras de varrer desesperanças
pontes de ligar sonhos

Na luta
de classes em classes
inauguraram dias
de aprender ensinando
que ficar em pé e fincar o pé
educa mais
que sentar nessas cadeiras
enfileiradas desde o século retrasado

(para @s estudantes das escolas ocupadas do Estado de SP,
inspirado n@s guerreir@s da EE Raul Fonseca)

Contos de Fardas




Chega, né?
você já não tem mais cidade
pra acreditar em contos de fardas

Desenho de Fabiano Carriero - poema de Lucas Bronzatto


Feito as mãos

FEITO AS MÃOS

Sentei para escrever um poema
mas os vapores do gás lacrimogêneo
jogado nos adolescentes
entraram por debaixo da minha porta
irritaram tanto meus olhos
que não enxergavam mais papel algum
não acreditavam mais em papel algum
Levantei da cadeira
botei o lenço e o vinagre na mochila
e tive que deixar a caneta de lado

Sentei pra escrever um poema
mas a lama da Vale
chegou ao mar das minhas palavras
destelhou minha casa
manchou meu caderno
engoliu tudo que eu tinha escrito
Tentei canetas de todas as cores
mas nenhuma escrevia mais
sobre essa tonalidade dolorida de marrom
Levantei da cadeira
e tive que deixar a caneta de lado

Sentei pra escrever um poema
mas o cortejo pequeno
velando mais um jovem negro assassinado
sob olhares indiferentes
passou na minha janela
me fez levantar da cadeira
e deixar a caneta de lado

Sentei pra escrever um poema
mas tentaram roubar a infância
de uma criança na minha frente
outra vez
a violência adulta foi tanta
que as folhas se espalharam pelo quarto
e não conseguia juntar de novo
meus pedaços
Levantei da cadeira
brinquei com ela no chão
por algumas horas
deixando a caneta de lado

Sentei pra escrever um poema
mas lembrei da piada homofóbica no futebol
do comentário machista no bar
e da linha que liga quem falou
à lampada quebrada nos corpos na rua
aos assédios
a tantos crimes de ódio
Levantei da cadeira
e comecei uma treta
que ainda não acabou
e acabei deixando a caneta de lado

Sentei pra escrever um poema
mas a nova lei que o Congresso aprovou
martelou todos os versos
interditou juridicamente as metáforas
A canetada tirou a caneta da minha mão
e me fez levantar da cadeira

Sentei pra escrever um poema
mas tinha uma brecha
na agenda da escola ocupada
Arrisquei e toparam
Levantei da cadeira
fiz uma oficina sem nunca ter feito
falamos de tudo que nos tira da cadeira
fomos junt@s pra rua
aprendi mais que ensinei
com a caneta de lado
fizemos um poema
e era verde
como os olhos da meninazinha

(Lucas Bronzatto)

Ode ao tomate do quintal

ODE AO TOMATE DO QUINTAL

(releitura agroecológica de poema de Pablo Neruda)

A rua
se enche de perguntas
quando vê
os pés de tomate
irrompidos no concreto

os de apartamentos
indagam
se seria possível sem quintal
os de casas
se perguntam por que não
os que um dia migraram
admiram nostálgicos
os tão cinza quanto a cidade
olham enojados
e não encontram porquês

em dezembro
é comum encontrar
bolotas vermelhas
nos jardins da cidade
brilhantes
artificiais
mas essas bolotas
nada artificiais
surpreendem quem passa
em frente à casa
em dezembro
ou em qualquer mês

destoam
dos canteiros esterilizados
dos pés arrancados
dos pés enterrados na pressa
das praças de alimentação

semear
regar
ver crescer
curar sem química
os desequilíbrios
que a metrópole gera
colher
comer
com calma
compostar a sobra
e com calma
ver vida nova renascer

ciclo que afronta o agronegócio
afronta a indústria de alimentos
afronta caminhões que despejam
milhares de tomates na estrada
pra regular o preço
afronta a morte pré-datada

têm luz própria
vermelhos
como o interior da casa
ingrediente mais presente nas receitas
desde sempre
agora invadiram a cozinha
a ponto
de não ser mais preciso comprar
tomates
pendurados em cabos de vassouras
tornaram-se símbolo
da trincheira contra o capital
aberta no quintal
vistas da calçada
cada madeira alçada
é uma bandeira
pequeno passo para a humanidade
grande passo para o sujeito
fruta de luta
polpa que poupa
semente que desmente a falácia
da necessidade de agrotóxico

debaixo da casca
dentro de suas cavernas
habita afeto
habita partilha
habitam memórias e futuros
de um menino comendo tomate
quase todo fim de tarde
vendo desenhos na tevê
e hoje crescido
toma café
quase todo fim de tarde
olhando os tomates
que outras crianças vão comer
direto do pé

sementes que vão carregar

os que há pouco
estavam amarelos
com suas novas cores anunciam:
é hora de colher!
postos sobre a mesa
são mais a cada colheita
são de vários tipos
prontos para o desfrute
e para o escambo com vizinhos
por abacates
bolos
rosas
conversas de portão

vindos debaixo da terra
seus ramos
são capazes de enlaçar a vizinhança
tanto quanto os insetos
que polinizam
suas flores amarelas

vindos debaixo da terra
postos sobre a mesa
nos entregam de presente
os resquícios
da vida em comunidade na metrópole
que o cimento não tapou
germinando-os

Margem histórica

Outra cidade que não esta
à mostra
à vista
à prazo

Guardada nas casas
de portas e janelas coloridas
fechadas
Guardada nos quintais
de lares sem placas charmosas
sem logomarcas
sem brisas de ar condicionado

Cidade que sua
sorri e chora
com seus olhos de gente
seus bichos de gente
suas plantas de gente
suas crenças de gente

Gente
que habita a arquitetura
moradores dos patrimônios
imateriais humanos
materiais privações
apropriações
expropriações

Gente
do centro histórico
à margem
de quem passa vendo vitrines
e cardápios poliglotas

Gente
do centro histórico
Gente: o centro da História
de outra cidade que não esta
à mostra
à vista
à prazo

[Foto: Nair Benedicto - Exposição "Esta é a vida que eu quis" (Personagens de Paraty)]


terça-feira, 17 de maio de 2016

Cela-lar


Cela-lar

O celular de Naná
é a lua
(Otto)

Autorização pra se ausentar
repetidas vezes
o olho faz o ouvido ouvir fragmentos
parte do que é dito apenas
a duras penas
Conexão que desconexa a conversa
Cabeças confusas
frases que se perdem
num arrastar de dedo
num arrastar de olhos

Holograma ao contrário
tela que engole
o gole no copo atrasa
esfria se era quente
esquenta se era frio

Aplicativos desimplicativos
mundos nos dedos
e menos dedos no mundo

Fazer aquela cara meio sem graça
quando flagrado com o olho na botija
fingindo que ouvia
enquanto via outra coisa
meio sem jeito de perguntar de novo
que?”


Pedir desculpas por não estar presente
e continuar não estando
Perder as paisagens das janelas laterais
dos trajetos da vida

Tomar café da manhã com passarinhos
virtuais cantando mensagens
e mal ver o bem-te-vi lá fora

Vem almoçar menino
que o celular já tá na mesa
Vem jantar menina
que o celular já tá na mesa

Olhar a tela é desculpa mais aceitável
pra continuar não olhando
pra quem senta ao lado no metrô

Toque restrito à tela
Tanta gente com fome de ouvido
e tanta gente com fone de ouvido

Perder-se pouco
achar-se frequentemente
com a respiração presa
com a vida presa
Ficar mais perto
de quem mesmo?
Ficar mais esperto
pra que mesmo?

Prefiro vidrar os olhos no celular de Naná

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Pedras atiradas

Pedras Atiradas


Capitaliza mais se não usar a palavra
capitalismo
comunica mais se não usar a palavra
comunismo
impressão boa não causa a palavra
opressão
explore outras palavras pra substituir
exploração
há uma fobia da palavra
homofobia
achismo demais no que chamou de
machismo
transforme em outra a palavra
transfobia
cismo que não é isso onde diz
racismo
fico aflito de tanto ler a palavra
conflito
enterre esta frase que diz que aqui há
guerra
luvas de pelica são bem melhores que
lutas
é falta de classe interpretar a partir de
classes
por que você não troca burguesia
por pessoas mais favorecidas?
domine seu engajamento e não use a palavra
dominação
ameniza senão não viraliza
amoleça estas palavras duras
limpe a poeira do muro de berlim da sua boca
da sua caneta
tire estas pedras do caminho de quem lê
de quem ouve

Não tiro
não troco
não limpo
não amoleço
não amenizo

hesitações e silêncios
cômodos
nutrem estas palavras
incômodas

as pedras ficam
quando pedra preciso for

partirão de minha boca
de minha caneta
como avalanches
se preciso for

onde não há metáfora
é pra não haver confusão
se dói na pele do povo
é pra doer nos ouvidos
de novo
e de novo
e de novo

(Lucas Bronzatto)