domingo, 29 de dezembro de 2013

Multimídia II



Quantos anos há entre eu e você?
Quantas palavras antes destas?
Boletos? Boleros? Bilhetes?
Cartas de amor? Duas gerações? Mais?

Pulo a linha com as mãos ainda

como é que se resolve um tilt de máquina de escrever?
sem alt sem del sem control
sem controle sobre a máquina o homem se desespera sempre
e sempre é em vão
mais cedo ou mais tarde
a máquina controlará o homem
que iludido acreditará
que controla a máquina

os poetas não controlam suas máquinas de escrever
às vezes o barulho das teclas invade,
se escuta até a caneta rabiscando palavras soltas
na cabeça
há um pouco de infância no som e na bobina
marcas de quando brincávamos de escrever
e que hoje me ajudam a brincar com as palavras.

(Lucas Bronzatto)

na máquina de escrever que ganhei do meu avô Roberto.

Como foi o primeiro poema que escrevi nela, mantive os erros de digitação, de quem ainda tá aprendendo a mexer.

Multimídia I


emaranhado de estrelas cadentes 
que não caíram
viajam incandescentes

decadentes focos de luzes de cidades destruídas
faróis foram
fogueiras foram
lâmpadas foram

pontos de vista criam e recriam galáxias

dispor-se longamente a olhar
expor-se
longa exposição
luz
segundos
anos-luz
estrelas que nunca caem

(Lucas Bronzatto)

Poem sobre a foto de 
Rubem Abrão da Silva: Luzes da cidade em longa exposição

sábado, 2 de novembro de 2013

Viajantes

Viajantes

Estrangeiros
passageiros
Nada que se vê é nosso

Vidas abarrotadas e bagunçadas
dentro das mochilas

Rotas traçadas a lápis

Sonhos de que a vida fosse assim
para sempre
sem roteiro sem rotina
sem retorno

Estrangeiros
passageiros
companheiros
partimos todos
nas mochilas uns dos outros

sábado, 26 de outubro de 2013

Fora do Poema

A dor é real
Escorre sangue fora do poema

Lágrimas tímidas em nada adiantam
Sentir como se fosse na pele
não é sentir na pele
não é o bastante
nunca foi

Canalizar na caneta e calar
e colar palavras em murais
ecoar
e calar
melhor que nada, mas
nada que melhore

(Lucas Bronzatto)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo

Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
Na noite passada manifestantes foram detidos
e transportados em ônibus com destino ao passado
Passado que não passou, ditadura que dura
ainda um mesmo dia, 1º de abril de 64, 2013
64 presos, 200 levados pra delegacia, talvez mais

Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
Os policiais que protegem os bancos e seus vidros
que mantêm a ordem pra injustiça se reproduzir em paz
que matam e fazem desaparecer nas favelas
que se irritam quando não se mira no peito dos manifestantes
os tiros de balas de metal
que atiram pertences em caminhões de lixos
comemoraram com orgulho no café no batalhão
cada um dos fichados por formação de quadrilha,
danos ao patrimônio e pelo crime hediondo
de tentar fazer da casa do povo a casa do povo
numa noite com 200 levados pra delegacia, 64 presos
num dia que já dura 49 anos
doi-codi
dói-choque

Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
e me deu vontade de quebrar o vidro
da televisão que mentia a cada cinco segundos
a cada frase com a palavra infiltrados
a cada tentativa de justificar a truculência
Como fez todos os dias daquele dia que começou em 64
e teve 64 presos quando anoiteceu em 2013

Hoje o Rio de Janeiro amanheceu chovendo
As lágrimas de ontem evaporaram, condensaram
e caíram sobre a cidade
Choveu o dia inteiro
Aqui, cada lágrima que a violência do Estado arranca
guarda um rio de dor represado
carrega os mais de dez mil mortos pela polícia em dez anos
e outros tantos mais
por isso às vezes o Rio amanhece chorando desconsolado

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Poema em cima da pedra

Nunca tinha escrito um poema em cima de uma pedra
Escrever em cima de uma pedra, descalço,
é sentir nos pés e nas pernas
o mundo como ele é:
duro
áspero
dolorido
imenso
sem nada que alivie

Os musgos verdes que brotam na base das pedras
esperançosos
são poemas que o mar traz
O mar é insistente diante da dureza das pedras

como os poetas são insistentes diante da dureza do mundo

(Lucas Bronzatto)