Quando os pacientes perderem a paciência*
Ninguém mais vai morrer na porta dos hospitais
Nenhum desrespeito será tolerado
Não existirão mais farmácias privadas
nem planos nem seguros
pois será proibido pagar por saúde
quando os pacientes perderem a paciência
O lucro não vai mais definir doenças
e ninguém mais vai engolir junto com os comprimidos
as péssimas condições de vida e trabalho
porque não haverá mais opressores e oprimidos
quando os pacientes perderem a paciência
Não existirão propagandas de remédios nem de alimentos
Será tamanha a clareza do cidadão sobre seu corpo
que a palavra prescrição será abolida do dicionário
Todo e qualquer tratamento será decidido em conjunto
quando os pacientes perderem a paciência
Muitos intelectuais ficarão sem chão
ao verem que o problema central não era de administração
que as grandes soluções não eram humanização, formação,
avaliação, regulação, negociação
Ficará claro que o melhor dispositivo de gestão é a revolução
quando os pacientes perderem a paciência
Todo contrato de trabalho será digno
Fundações, O.S., EBSERH, serão apenas letras
e palavras indecifráveis de papéis amarelados
no museu de nosso passado precário
quando os pacientes perderem a paciência
Não haverá mais abismos nem hierarquias
nem gritos nem silêncios nem prisões nem indiferenças
Os pacientes é que serão os deuses
quando perderem a paciência
Quando os pacientes perderem a paciência
numa reunião qualquer do centro comunitário do bairro
serão decididos os rumos da ciência
(Lucas Bronzatto)
*versão do belíssimo poema de Mauro Iasi “Quando os Trabalhadores Perderem a Paciência”
sábado, 28 de setembro de 2013
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Playa
Playa
Chilenos fazem malabares
Uma vaca passa e vira atração turística
Um menino boliviano passa
oferecendo água quente para mate
e volta equilibrando quatro garrafas térmicas
uma de cada cor
Batem ondas de água doce
Um estadunidense passa tomando Inka Cola
Tomo mate de erva argentina com bomba brasileira
cuia peruana e garrafa térmica boliviana
querendo tocar uma canção cubana em algum violão
Um grupo de argentinos sentados numa canga baiana
queima um palo santo andino
Um casal de franceses passa vestindo roupas peruanas
tecidas à mão e comem salchipapas
A areia suja os chinelos
Um brasileiro toca um samba antigo num charango boliviano
Uma colombiana lê um livro uruguaio sobre a América Latina
e se indigna a cada página ensanguentada que vira
As nuvens estão tão perto que fazem sombra nas montanhas
Cholas passam levando mercadorias para seus comércios
As vendas vendem vinho chileno, fernet e cerveja boliviana
Quando o sol se vai todos vestem suas blusas de frio
e voltam às barracas
Fronteira é uma palavra
de algum idioma que não se fala aqui
numa praia na Bolívia
que não tem saída para o mar
(Lucas Bronzatto)
Isla del Sol, Bolivia
Isla del Sol, Bolivia
Isla del Sol, Bolivia
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Crônicas e Agudas
Crônicas e agudas
1.
Cada ano 80 mil
crianças em todo o mundo
morrem vítimas de
doenças evitáveis
Nenhuma delas é cubana
Têm razão, isto não é um dado estatístico.
É um poema vivo
2.
Em Cuba não há:
visitas de representantes da indústria farmacêutica
congressos e viagens pagas pela indústria farmacêutica
bonificações por prescrição da indústria farmacêutica
estudos confiáveis encomendados pela indústria farmacêutica
Os do aeroporto de fortaleza estão certos:
os escravos cubanos são mal
fôrmados
3.
Doutora, eu não me engano
sua vaia orgulha o feliciano
4.
Doutor, se eu não me engano
o diploma do seu filho médico é cubano
5.
Se temos algo a ensinar aos cubanos sobre atenção primária
são esses nossos tratamentos tapa buraco
para os adoecimentos do trabalho inoculados pelo capitalismo
6.
Se os médicos cubanos são escravos
se os jornalistas da veja são livres
alguém por favor me diz
onde assino minha carta de desalforria?
7.
Me perdoe se for preconceito
mas faltam médicas no Brasil com cara de empregadas
domésticas,
não?
8.
Qual é o CID pra racismo?
9.
Antes de falar da pobreza em Cuba
olhe pro seu umbigo
mas olhe direito
10.
Advertimos ao Ministério da Saúde:
pintar a ponta do iceberg de vermelho
até nos distrai
mas não nos engana
Os sintomas persistirão
enquanto a saúde for mercadoria
(como o coro já dizia)
11.
Mais que mais médicos
só com mais rua
mas cuidado!
fiquemos longe desses vândalos do white bloc
e seus coquetéis xenofobov
(Lucas Bronzatto)
--
Algumas das notícias que estão nas entrelinhas deste poema:
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/08/medicas-patricinhas-envergonham-o-brasil.html
http://www.viomundo.com.br/denuncias/a-jornalista-e-o-medico-que-perderam-a-chance-de-ficar-calados.html
http://www.viomundo.com.br/denuncias/simers.html
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22582
Itinerando com a Itinerância
O irmão e poeta Guilherme Salgado vem lançando seu livro Itinerância Poética em encontros cheios de poesia e beleza Brasil afora.
Parte desta aventura foi feita em um fusca e pouco a pouco é relatada para o mundo virtual em seu blog: www.itineranciapoetica.blogspot.com.br no qual também estão alguns dos poemas deste e dos outros livros que virão. No Sarau da Cooperifa, em São Paulo, o fusca foi pintado de poesia e deixei algumas palavras também, como se vê na foto abaixo.
Visitem o blog para conhecer mais de suas itinerâncias que logo logo romperá as desnecessárias fronteiras de nossa América Latina!
domingo, 25 de agosto de 2013
Tenho (Nicolás Guillén)
Tenho
Quando me vejo e toco
eu, João sem Nada ontem,
e hoje João com Tudo,
e hoje com tudo,
passo os olhos, olho,
me vejo e toco
e me pergunto como pôde ser.
Tenho, vamos ver,
tenho o prazer de andar por meu país,
dono de tudo que há nele,
olhando bem de perto o que antes
não tive nem podia ter.
Colheita posso dizer,
monte posso dizer,
cidade posso dizer
exército dizer,
já meus para sempre e teus, nossos ,
e um largo resplendor
de raio, estrela, flor.
Tenho, vamos ver,
tenho o prazer de ir
eu, camponês, operário, gente simples,
tenho o prazer de ir
(é um exemplo)
a um banco e falar com o administrador,
não em inglês,
não em senhor,
mas dizer-lhe companheiro como se diz em espanhol.
Tenho, vamos ver,
que sendo um negro
ninguém pode me deter
na porta de uma danceteria ou de um bar.
Ou então na recepção de um hotel
gritar-me que não há quarto,
um mínimo quarto e não um quarto colossal,
um pequeno quarto onde eu possa descansar.
Tenho, vamos ver,
que não há guarda rural
que me agarre e me prenda num quartel,
nem me arranque e me expulse da minha terra
no meio do caminho real.
Tenho que como tenho a terra tenho o mar,
não country
não railáif
não tenis não yacht,
mas de praia em praia e onda em onda,
gigante azul e aberto democrático:
enfim, o mar.
Tenho, vamos ver,
que já aprendi a ler,
a contar,
tenho que já aprendi a escrever
e a pensar
e a rir.
Tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
Tenho, vamos ver,
tenho o que tinha que ter.
(Nicolás Guillén, 1964)
tradução livre por Lucas Bronzatto
--
Nicolas Guillén (1902-1989)
Poeta cubano, de vasta e bela obra, considerado o "Poeta Nacional" em seu país.
domingo, 21 de julho de 2013
Oficina
Oficina
(poema composto com versos emprestados e imprestáveis)
é palavra dita errada sem querer, mal-ouvida
a poesia é isso mesmo que você viu, não duvide, não revide
poesia é falta, é sobra, dá lugar pro que não leva a lugar nenhum
poesia é exercício de liberdade
tem gente que inventa exercício pra libertar poesia
e consegue
a poesia tem Tantas Letras quanto necessário
a poesia, essa desnecessária, é pão amanhecido
é pão dura, fartura, tá dura, desempregada,
coitada, a poesia é o caroço da literatura
é angu de caroço é tabu é urubu é aguda
urge ruge grunhe sussurra cutuca assopra
a poesia é uma compilação de momentos incríveis
escritos com palavras brandas e suaves
é aquele momento que você tá ali, sossegadicto
vestindo letras com sua costela feita de carne
e seus sonhos im/possíveis que nem cabem no poema
a poesia é a consolação daquele amor de 2 reais e 90centavos
a poesia é um tormento secreto distorcido pra que alguém não entenda
é uma mulher em rota de chuva na estação das águas
um homem que pouco a pouco se funde a uma árvore
a poesia é uma árvore caída nas costas da própria sombra
é o que normalmente não se vê
como os versos que escorrem nos vidros das janelas dos ônibus
(como você pode ver, não é coisa de gente normal)
a poesia é o retalho de si mesma e se sente tão estrangeira quanto seu nome
a poesia impregna desejos enormes em poemas curtos
entra ensanguentada nas trincheiras de poemas tortos
a poesia já tava assim quando eu cheguei, eu não tenho tudo a ver com isso
ah, poesia, pois é, pois vamos, camarada!
camaradas, a poesia quer mesmo é romper os muros
que desbotam e dissipam os anseios, a poesia, ousada que só ela,
quer diagnosticar a esquizofrenia do capitalismo
a poesia quer cantar Belchior quando fica bêbada
escrever poema em guardanapo fazer samba com paliteiro
a poesia é o palito de dente que num descuido
espeta sua gengiva e enche sua boca de sangue
poesia é boteco é biblioteca é pinacoteca
todo dia é dia de poesia mas as tardes de sábado parecem mais propícias
a poesia se mantém poesia mesmo numa sala cheia de revistas veja
a poesia é uma gaveta repleta de currículos ao contrário
e dezenas de acrobatas que você não vê
a poesia é uma outra que não essa
poesia é o que nunca pode ser sem ter sido, é o que nunca foi
a poesia não é enlatada, nunca vem lacrada
e se tiver aí entalada toma uma lapada que ela escapa
a poesia não é nada disso, esqueça tudo que eu disse
quem diz o que a poesia é
é o poema
(Lucas Bronzatto)
para/com os amigos de Tantas Letras e Lapadas
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Domingo no Maracanã
Bem amigos da Rede Globo falamos ao vivo
diretamente do Maracanã, do novo Maracanã!
que festa linda! que bonito
o povo brasileiro apoiando a seleção de novo
e que maravilha esta nova Arena
A Seleção Brasileira se prepara pra entrar em campo
O batuque tá forte
os gritos cada vez mais
altos
as vozes cada vez mais parecem
uma só
o coro vai se afinando
O torcedor lota as arquibancadas
e que beleza de organização
o Brasil tá dando show pro mundo
Os prédios começam a
piscar suas luzes
tem bandeiras do Brasil na
janela
tem cartazes, panos
brancos e aplausos
tem gente que olha com
desdém
mas tem muita gente acreditando
muita gente no clima
vai ser difícil, tarefa
heroica
“se eles conseguirem vai
ser histórico”
Vamos à escalação do time,
aquela que o brasileiro já decorou
Julio Cesar, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz,
Marcelo
Luiz Gustavo, Paulinho, Hulk, Oscar,
Neymar e Fred na frente
Diante dos brasileiros a
fúria
bloqueando o caminho
Entra em campo a seleção de Felipão
sob muitos aplausos
Aplausos rítmicos e o
batuque não pára
um helicóptero começa a
sobrevoar girando em círculo
Vamos ao hino nacional,
tão cantado nas últimas semanas
mão no peito, muita emoção no estádio
Centenas de pessoas choram
desabam em lágrimas
incontroláveis
a pele arde e a respiração
não basta
tumulto correria resistência
O estádio canta a plenos pulmões
de pé
De pé, não corre, não
corre
o mundo todo tem que saber
que a geral do maraca ficou
de fora
que na mão de quem erguer
a taça vai escorrer sangue
e lágrimas de gente removida de suas casas
Começa o jogo, haja coração amigo
linda linda a Arena Maracanã, clima de festa no ar
Uma nuvem branca no ar
e eles vinham por todos os
lados
encurralando
encurralando
Partiu Neymar vai bater
olha a bomba
Olha
a bomba olha a bomba
caralho
chuta pra longe porra
calma
não corre não corre
não
esfrega o olho não esfrega
porra acertaram o olho do
cara
Lá vai Brasil pro ataque sobrou
Fred vai bateeer
gooooooooooooooool
grita forte o povo brasileiro
mesmo caído o Fred acerta o alvo
Inacreditável!
Inacreditável!
Quanto mais bombas
mais forte se gritava
mesmo os caídos eram alvo
Inacreditável
Inacreditável
Olha lá, Neymar, Oscar, Neymar
olha o gol olha o gol olha o gol
gooooooooooooooool
- Pois é, Galvão, como sempre, a manifestação seguia pacífica
até que um pequeno grupo de vândalos provocou a polícia
Policiais aos milhares
dispersaram os
manifestantes
até sobrarem dezenas
Um grupo ainda resiste
ninguém sabe o que se
passa
Olha o Fred Fred-Gol bateu
é goooooooooooooooool
3 a 0
Acabou é tetraaa é tetra
Acabou é tetraaa é tetra
Foi um massacre
o Brasil massacrou a Fúria
e que venha a Copa do Mundo!
Foi um massacre
a fúria massacrou o Brasil
outra vez
e que venha a Copa do Mundo!
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