quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Itinerando com a Itinerância

O irmão e poeta Guilherme Salgado vem lançando seu livro Itinerância Poética em encontros cheios de poesia e beleza Brasil afora.
Parte desta aventura foi feita em um fusca e pouco a pouco é relatada para o mundo virtual em seu blog: www.itineranciapoetica.blogspot.com.br no qual também estão alguns dos poemas deste e dos outros livros que virão. No Sarau da Cooperifa, em São Paulo, o fusca foi pintado de poesia e deixei algumas palavras também, como se vê na foto abaixo.
Visitem o blog para conhecer mais de suas itinerâncias que logo logo romperá as desnecessárias fronteiras de nossa América Latina!


domingo, 25 de agosto de 2013

Tenho (Nicolás Guillén)

Tenho

Quando me vejo e toco
eu, João sem Nada ontem,
e hoje João com Tudo,
e hoje com tudo,
passo os olhos, olho,
me vejo e toco
e me pergunto como pôde ser.

Tenho, vamos ver,
tenho o prazer de andar por meu país,
dono de tudo que há nele,
olhando bem de perto o que antes
não tive nem podia ter.
Colheita posso dizer,
monte posso dizer,
cidade posso dizer
exército dizer,
já meus para sempre e teus, nossos ,
e um largo resplendor
de raio, estrela, flor.

Tenho, vamos ver,
tenho o prazer de ir
eu, camponês, operário, gente simples,
tenho o prazer de ir
(é um exemplo)
a um banco e falar com o administrador,
não em inglês,
não em senhor,
mas dizer-lhe companheiro como se diz em espanhol.

Tenho, vamos ver,
que sendo um negro
ninguém pode me deter
na porta de uma danceteria ou de um bar.
Ou então na recepção de um hotel
gritar-me que não há quarto,
um mínimo quarto e não um quarto colossal,
um pequeno quarto onde eu possa descansar.

Tenho, vamos ver,
que não há guarda rural
que me agarre e me prenda num quartel,
nem me arranque e me expulse da minha terra
no meio do caminho real.
Tenho que como tenho a terra tenho o mar,
não country
não railáif
não tenis não yacht,
mas de praia em praia e onda em onda,
gigante azul e aberto democrático:
enfim, o mar.

Tenho, vamos ver,
que já aprendi a ler,
a contar,
tenho que já aprendi a escrever
e a pensar
e a rir.
Tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
Tenho, vamos ver,
tenho o que tinha que ter.

(Nicolás Guillén, 1964)

tradução livre por Lucas Bronzatto

--

Nicolas Guillén (1902-1989)
Poeta cubano, de vasta e bela obra, considerado o "Poeta Nacional" em seu país.

domingo, 21 de julho de 2013

Oficina

Oficina
(poema composto com versos emprestados e imprestáveis)

é palavra dita errada sem querer, mal-ouvida
a poesia é isso mesmo que você viu, não duvide, não revide
poesia é falta, é sobra, dá lugar pro que não leva a lugar nenhum
poesia é exercício de liberdade
tem gente que inventa exercício pra libertar poesia
e consegue
a poesia tem Tantas Letras quanto necessário
a poesia, essa desnecessária, é pão amanhecido
é pão dura, fartura, tá dura, desempregada,
coitada, a poesia é o caroço da literatura
é angu de caroço é tabu é urubu é aguda
urge ruge grunhe sussurra cutuca assopra
a poesia é uma compilação de momentos incríveis
escritos com palavras brandas e suaves
é aquele momento que você tá ali, sossegadicto
vestindo letras com sua costela feita de carne 
e seus sonhos im/possíveis que nem cabem no poema
a poesia é a consolação daquele amor de 2 reais e 90centavos
a poesia é um tormento secreto distorcido pra que alguém não entenda
é uma mulher em rota de chuva na estação das águas
um homem que pouco a pouco se funde a uma árvore
a poesia é uma árvore caída nas costas da própria sombra
é o que normalmente não se vê
como os versos que escorrem nos vidros das janelas dos ônibus
(como você pode ver, não é coisa de gente normal)
a poesia é o retalho de si mesma e se sente tão estrangeira quanto seu nome
a poesia impregna desejos enormes em poemas curtos
entra ensanguentada nas trincheiras de poemas tortos
a poesia já tava assim quando eu cheguei, eu não tenho tudo a ver com isso
camaradas, a poesia quer mesmo é romper os muros
que desbotam e dissipam os anseios, a poesia, ousada que só ela,
quer diagnosticar a esquizofrenia do capitalismo
a poesia quer cantar Belchior quando fica bêbada
escrever poema em guardanapo fazer samba com paliteiro
a poesia é o palito de dente que num descuido
espeta sua gengiva e enche sua boca de sangue
poesia é boteco é biblioteca é pinacoteca
todo dia é dia de poesia mas as tardes de sábado parecem mais propícias
a poesia se mantém poesia mesmo numa sala cheia de revistas veja
a poesia é uma gaveta repleta de currículos ao contrário
e dezenas de acrobatas que você não vê
a poesia é uma outra que não essa
poesia é o que nunca pode ser sem ter sido, é o que nunca foi
a poesia não é enlatada, nunca vem lacrada
e se tiver aí entalada toma uma lapada que ela escapa
a poesia não é nada disso, esqueça tudo que eu disse
quem diz o que a poesia é

é o poema

(Lucas Bronzatto)
para/com os amigos de Tantas Letras e Lapadas

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Domingo no Maracanã


Bem amigos da Rede Globo falamos ao vivo
diretamente do Maracanã, do novo Maracanã!
que festa linda! que bonito
o povo brasileiro apoiando a seleção de novo
e que maravilha esta nova Arena
A Seleção Brasileira se prepara pra entrar em campo
O batuque tá forte
os gritos cada vez mais altos
as vozes cada vez mais parecem uma só
o coro vai se afinando
O torcedor lota as arquibancadas
e que beleza de organização
o Brasil tá dando show pro mundo
Os prédios começam a piscar suas luzes
tem bandeiras do Brasil na janela
tem cartazes, panos brancos e aplausos
tem gente que olha com desdém
mas tem muita gente acreditando
muita gente no clima
vai ser difícil, tarefa heroica
“se eles conseguirem vai ser histórico”
Vamos à escalação do time,
aquela que o brasileiro já decorou
Julio Cesar, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz, Marcelo
Luiz Gustavo, Paulinho, Hulk, Oscar,
Neymar e Fred na frente
Diante dos brasileiros a fúria
bloqueando o caminho
Entra em campo a seleção de Felipão
sob muitos aplausos
Aplausos rítmicos e o batuque não pára
um helicóptero começa a sobrevoar girando em círculo
Vamos ao hino nacional,
tão cantado nas últimas semanas
mão no peito, muita emoção no estádio
Centenas de pessoas choram
desabam em lágrimas incontroláveis
a pele arde e a respiração não basta
tumulto correria resistência
O estádio canta a plenos pulmões
de pé
De pé, não corre, não corre
o mundo todo tem que saber
que a geral do maraca ficou de fora
que na mão de quem erguer a taça vai escorrer sangue
e lágrimas de gente removida de suas casas

Começa o jogo, haja coração amigo
linda linda a Arena Maracanã, clima de festa no ar
Uma nuvem branca no ar
e eles vinham por todos os lados
encurralando
Partiu Neymar vai bater 
olha a bomba
Olha a bomba olha a bomba
caralho chuta pra longe porra
calma não corre não corre
não esfrega o olho não esfrega
porra acertaram o olho do cara
Lá vai Brasil pro ataque sobrou
Fred vai bateeer
gooooooooooooooool
grita forte o povo brasileiro
mesmo caído o Fred acerta o alvo
Inacreditável!  

Quanto mais bombas
mais forte se gritava
mesmo os caídos eram alvo
Inacreditável
Olha lá, Neymar, Oscar, Neymar
olha o gol olha o gol olha o gol
gooooooooooooooool

- Pois é, Galvão, como sempre, a manifestação seguia pacífica
até que um pequeno grupo de vândalos provocou a polícia
Policiais aos milhares
dispersaram os manifestantes
até sobrarem dezenas
Um grupo ainda resiste
ninguém sabe o que se passa
Olha o Fred Fred-Gol bateu
é goooooooooooooooool
3 a 0 

Acabou é tetraaa é tetra
Foi um massacre
o Brasil massacrou a Fúria
e que venha a Copa do Mundo!
Foi um massacre
a fúria massacrou o Brasil 
outra vez
e que venha a Copa do Mundo!

--

Instantes antes do apito inicial:

(Foto: Rebeca Marinho)




quinta-feira, 20 de junho de 2013

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O que cabe em vinte centavos?

O que cabe em vinte centavos?

Em vinte centavos cabem os 7,2% que faltavam
pra inteirar 327% de aumento desde 2000
cabem avenidas humanas
corredores de gente
cabe uma refeição pulada uma catraca pulada
não cabe aumento no salário do cobrador
nem do motorista
cabe a diferença entre preço e valor
cabe impedir de ir e vir
pra lembrar que nem todos podem ir nem vir
cabem cidades virando balcões de negócio
cabe rimar transporte com direito
cabe decretar falência
de ordens e órgãos de um sistema que não serve
nem nunca serviu
cabe a palavra basta
e tudo que ela carrega

Em vinte centavos cabem cartazes bandeiras
faixas máscaras megafones flores e poemas
cabe cutucar sonhos adormecidos
desmascarar conservadores enrustidos
despolarizar falsas polaridades
cabe polarizar
politizar
fazer política com as próprias mãos e bocas e pernas
e pedras pra se defender se for preciso
vai ser preciso porque isso aqui é ditadura disfarçada
com outra cor de farda
e não, não será televisionada
nem compreendida
nem contextualizada
dos dois lados da moeda só a coroa será mostrada
serão coroadas as coronhas os gases
e os ases da violência autorizada
a bala é de borracha a bala é de borracha
e vai doer
vai doer

Em vinte centavos cabem paródias olê-olás
gritos de torcidas e de guerra
cabe escancarar a guerra silenciosa
cabe Turquia cabe Grécia
duas moedas pra tirar as cidades da inércia
cabe reforçar o coro dos gritos do campo e das florestas
onde as balas de metal matam cada dia mais
não, não é só a passagem
é dar passagem pra sonhos e gritos entalados

zero vírgula dois vírgula!
o que as ruas pedem é outro país
--

 Rio de Janeiro, 13 de junho de 2013

domingo, 2 de junho de 2013

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