terça-feira, 7 de maio de 2013

Saudade


Sentado nessa praça em Arequipa, no Peru, escrevi este poema. Primeiros dias de janeiro de 2013. 
Não é porque tem a palavra saudade, mas achei difícil de traduzir para o espanhol, então vai só em português mesmo:



Saudade

Si quisiera regresar
ya no sabría hacia donde
(Jorge Drexler)


Saudade que senta no banco da praça comigo
Saudade que tento decifrar mas não consigo
Intrigante saudade de nem sei o que
A caneta escreve casa

Palavra intrigante

Se quisesse voltar já não saberia pra onde
sopra uma canção no fone de ouvido
Minha casa tem paredes coloridas
mosaico de casas já vividas
Tem tijolos à vista, fôrmas de ovos de páscoa azuis
borrões amarelos, rosados, vermelhos,
brancos com vinho
e varandas e janelas de apartamentos sem prédios
não tem chão
não tem teto
mas tem muitos quartos
de gente que não está,
deram uma saída
Me deram umas saídas
e não sei quando volto
pra onde volto

Essa saudade que bate à porta agora
talvez veio me entregar o endereço

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Arte Poética de los Andes


Arte Poética de los Andes

Eu bem que poderia escrever um poema
sobre a beleza branca de Sucre
ou a imensidão do deserto de sal em Uyuni
Poderia cantar odes à lua
ao sol
descrever o modo como nascem e morrem
nessas paisagens deslumbrantes
cantar o charme das lhamas
a cor do canto dos pássaros
os sons das ruas e dos vilarejos no deserto
o silêncio das estrelas do céu do Atacama
a força dos gêiseres e da lava
o cheiro do Oceano Pacífico
que me invade enquanto escrevo esse poema

Bem que poderia
mas o sal em meus olhos não me deixa

As fronteiras rompidas em cruzadas de olhares
as dores sem pátria
tão minhas
me lamentam versos no ouvido
e não consigo me fazer de surdo

Urgências me consomem
a ponto de parecer sem sentido
falar dessas paisagens

Sua gente
tão minha
me chama
e me faz crer que é preciso contar
e cantar
os não-brancos que vivem nas sombras de Sucre
a vida deserta de quem extrai sal em Uyuni
a pobreza de países tão ricos
o sol que não nasce pra quem morre todo dia
nesses lugares deslumbrantes
os povoados e vilarejos que não povoam mais a Terra
as estrelas silenciadas pelos generais nas ditaduras
e quem eram os que tiveram seus sonhos interrompidos
por erupções de ódio em forma de coturno
a lei de pesca chilena que elitiza o mar
e naufraga o sustento dos pescadores

Sua gente
tão minha
me faz cantar esses silêncios
desgraças da raça humana
que até Pacha Mama cantaria
se soubesse escrever
mas como não sabe
apenas grita

sábado, 13 de abril de 2013

Nuestra Señora de Atocha


Nuestra Señora de Atocha

Potosí, Bolívia, 1622
Parte o barco Nuestra Señora de Atocha
transportando prata
transbordando prata

afunda

Flórida, Estados Unidos da América, 1985
Um caçador de tesouros encontra na costa deste estado
o Nuestra Señora de Atocha
Traz o tesouro à superfície para que seja dividido:
Uma vez que o barco não chegou a seu destino
indo parar em mares ianques por força do Destino Manifesto
entendeu-se que era justo destinar artefatos para um museu na Flórida
e que o restante (estimado em mais de 400 milhões de dólares)
fosse dividido com a Espanha
uma vez que na época a Bolívia pertencia aos espanhóis
A parte que coube a Potosí na partilha foi uma moeda de prata
muito bem cunhada
Na Cara um desenho preciso:
Pacha Mama sendo estuprada pela Coroa
e uma Águia faminta sobrevoando

ao fundo

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* Destino Manifesto - Doutrina existente nos Estados Unidos da América na qual se crê que o povo deste país é o povo eleito por Deus para civilizar e libertar a América e expressar valores de liberdade para o mundo. Esta doutrina  justificou muitas das ações de intervenção nos países da América Latina ao longo dos anos, incluindo as ditaduras militares. Esta é só mais uma.
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En Español: 

Nuestra Señora de Atocha 

Potosí, Bolivia, 1622
sale el barco Nuestra Señora de Atocha
transportando plata
desbordando plata

se hunde

Flórida, Estados Unidos de América, 1985
Un cazador de tesoros encuentra en el mar de este estado
el barco Nuestra Señora de Atocha
Trae el tesoro a la superfície para dividirlo:
Como el barco no llegó a su destino
hundiendose en mares yanquis por fuerza del Destino Manifiesto
entendieron que seria justo destinar artefactos para un museo en Flórida
y lo demás (estimado en más de 400 millones de dólares)
dividir con España
ya que por aquel entonces Bolivia pertenecia a los españoles
Lo que tocó a Potosí en la partición fue uma moneda de plata
muy bien acuñada
en la Cara un dibujo preciso:
Pacha Mama estuprada por la Cruz
y un águila hambrienta sobrevolando

al fondo

Lapada Poética 1

Como desdobramento das oficinas do Tantas Letras, em 2011 fizemos o zine Lapada Poética, uma produção independente e colaborativo, composta pelos poemas dos participantes das oficinas. Agora ele está disponível na internet, e compartilho o link aqui.

http://issuu.com/leticia-mendonca/docs/lapada_poetica_zine?mode=window

Boa Leitura!

sexta-feira, 29 de março de 2013

Potosí

Potosí

Em Potosí é mais difícil respirar

4090 metros de puro ar rarefeito
o oxigênio parece fugir dos narizes

Quanto mais se aproxima do Cerro Rico
e dos 4800 metros de seu pico
mais difícil fica pra respirar
Pulmões desacostumados sofrem

Quando se entra no Cerro Rico
fica ainda mais difícil respirar
o peito não aguenta o que os olhos veem
Homens de pele cinza
corpos que se fundem à mina
e se afundam num inferno
a 4600 metros de altitude
de domingo a domingo
motores humanos
movidos a coca, álcool 96 e tabaco
inspiram força
expiram silicose
travessuras de dinamites
sangue e suor
incrustados nos brincos de prata
de orelhas brasileiras e europeias
sangue e suor
derretidos nas multinacionais
40 por ano morrem trabalhando
sabe-se lá quantos trabalham morrendo

Tantos fantasmas
quanto as toneladas de prata
que a Espanha levou
Gente extraída enquanto extrai
explorada enquanto explora
Picaretadas na alma
dessas que acertam em cheio
todos os dias
a maioria de nós abaixo do Rio Bravo
e deixam mais difícil respirar ali dentro

Quando se sai do Cerro Rico
é difícil voltar a respirar como antes

(Lucas Bronzatto)

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Foto: Jean-Claude Wicky (fotógrafo e diretor do filme "Todos los dias la noche", sobre os mineiros de Potosí)