sábado, 24 de março de 2012

Por quem merece amor (Silvio Rodriguez)

Existem algumas traduções dessa bela música do genial Silvio Rodriguez na internet, mas são traduções ao pé da letra, que perderam um pouco a estética da poesia. Há uma versão em português do MPB4 também, que ficou bem boa, mas o grupo primou pela melodia e alterou alguns versos. Arrisquei fazer a minha, enxergando-a como se fosse um poema. É uma das minhas homenagens a este grande compositor, trovador e revolucionário que é o Silvio. Foi a primeira música dele que ouvi e até hoje é uma das minhas favoritas em sua vasta obra.  


Silvio Rodriguez - Por quem Merece Amor

Te incomoda o meu amor?
Meu amor de juventude
meu amor é uma arte em virtude

Te incomoda o meu amor?
Sem máscara na face
meu amor é uma arte de paz

Meu amor é minha prenda encantada
é minha extensa morada
é meu espaço sem fim

Meu amor não precisa de fronteiras
como a primavera
não escolhe jardim

Meu amor não é amor de mercado
porque um amor sangrado
não é amor de lucrar

Meu amor é tudo o que tenho
se eu negá-lo ou vendê-lo,
pra que respirar?

Te incomoda o meu amor?
Meu amor de humanidade
e meu amor é uma arte na sua idade

Te incomoda o meu amor?
Meu amor de chafariz
e meu amor é uma arte maior

Meu amor não é amor de um só
senão alma de tudo
o que urge curar

Meu amor é um amor de abaixo
que o devir me trouxe
pra fazê-lo empinar

Meu amor, o mais apaixonado,
é do mais esquecido
na sua antiga dor

Meu amor abre peito pra morte
e lança sua sorte
por um tempo melhor

Meu amor, este amor aguerrido
é um sol aquecido
por quem merece amor

--

Sobre os motivos que o levaram a escrever a essa música, nos conta Silvio:  “Esta canção eu compus no final de 81, dezembro se não me engano. Nessa época o governo dos Estados Unidos decretou um bloqueio naval ao redor de Cuba e o fez com a desculpa de que nós, cubanos, estávamos enviando armas a El Salvador*. Coisa deles. Caso isso fosse verdade e caso fosse necessária uma resposta pra eles a um sentimento de solidariedade, de amor como poderia ser esse, a um gesto dessa envergadura, esta canção pretende ser essa resposta.”

* El Salvador passava por uma insurreição popular contra o governo (que era apoiado pelos militares), que por sua vez respondia com medidas repressivas à população e às guerrilhas locais. Registros compravam o papel dos EUA no envio de armas, ajuda militar e financiamento dessas ações do governo contra a população. Coisa deles.

Mais sobre silvio: www.zurrondelaprendiz.com (site dele) e www.segundacita.blogspot.com (blog dele).

quarta-feira, 14 de março de 2012

Abaixo-assinado em defesa do Tantas Letras

Há 5 anos existe em São Bernardo o projeto Tantas Letras, do qual tive o prazer de participar no último ano. É um projeto de formação de novos escritores (poesia e prosa) e críticos literários, gratuito e com oficinas de alta qualidade.
O Tantas fez de nós, que gostamos de literatura, mais capazes de fazer nossa própria literatura. Como diz o texto, participantes do projeto já escreveram livros, ganharam prêmios e criaram blogs, como este
Ao que tudo indica, o projeto não está sendo visto como prioritário e por isso estamos pedindo a colaboração para os que gostam de literatura e reconhecem a importância do estímulo à formação de novos escritores que ajudem, dedicando uns minutos de seu tempo (útil?) na internet assinando o abaixo assinado abaixo:

http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2012N22105

Coincidência ou não, hoje é o dia nacional da poesia! Dê sua contribuição para a poesia da região!

20:00

20:00
(Lucas Bronzatto)

Os olhos sempre ávidos de belezas
hoje não querem ver
Os ouvidos fazem-se de surdos
e as músicas não tocam a alma

Uma barreira de cílios invisíveis
impede que o aroma das flores
da brisa e do incenso invadam

A boca hoje não gosta
nem sente nenhum gosto
muito menos o insosso
do que preparo a contragosto

Se tivesse alguém
ou algo além do concreto para tocar
só sentiria dormência

Nem a inesperada presença da lua
brilhando no cinza imenso
consegue iluminar

Um livro talvez salve

O verso escorre, escapa
a palavra voa, viaja longe
a letra gira, pula
letra gira pula
letra gira pula
letargia pura

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Minha coleção

Minha coleção
(Lucas Bronzatto)

Nem selos nem latas
nem borboletas nem notas
nem discos de vinil
Coleciono, há um bom tempo,
nostalgias

E como são boas de colecionar!

Grande variedade de objetos
fáceis de encontrar por aí
Algumas das peças raras
de valores inestimáveis
são as mais simples de se obter

Arquivadas vivas,
não requerem técnicas de dissecação
nem minúcias de conservação

Não ocupam espaço
Não precisam de caixas,
alfinetes, plásticos, estantes,
nem nada que as prenda,
pois a razão de ser da coleção
é o momento em que escapam
voando de seu lugar no tempo
atraídas por uma música,
um cheiro, uma cena
um lugar, um poema
um gosto, uma brisa
uma piada, uma careta
um rosto inacreditavelmente parecido
um trejeito, um sotaque

Minha coleção de nostalgias,
essa fonte inesgotável de sorrisos inesperados,
é o jeito de fazer ficar
todo mundo e
todo o mundo que passa

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Palavras ao Invisível

Palavras ao Invisível
(Lucas Bronzatto)

Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
cortassem seus pulsos 

e jorrasse toda a Coca-Cola 
e o petróleo
que correm em seus veias
até não sobrar gota negra nenhuma
para contar sua história

Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
arrancassem seus dedos
pra que não conseguisse mais segurar
os comprimidos
que discretamente coloca nas bocas
para calá-las

Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
apertassem com força as gravatas
de todos os seus filhos prediletos
Estilhaçassem os vidros
de todos os prédios empresariais
de todas as salas de chefes
com seus recursos desumanos
e deixassem em cacos
todas as consciências opressoras
Que implantassem pesadelos nelas 

Terríveis pesadelos
que estrangulassem ainda mais as gargantas
no dia seguinte

Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
incinerassem todas as televisões e rádios
todos os jornais e revistas
que servem somente ou sutilmente a você
Que virassem crime o estupro de verdades
e o fomento à guerra
contra nós mesmos

Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
mostrassem pra todo mundo
inclusive pra mim
que só palavras não bastam
pra te aniquilar

sábado, 28 de janeiro de 2012

Pinheirinho

Pinheirinho
(Lucas Bronzatto)

Do rio que tudo arrasta
se diz que é violento
Mas ninguém diz violentas
as margens que o comprimem
(Bertolt Brecht)

Quando morar é um privilégio
ocupar é um direito
Retumba o brado
do povo heroico do Vale
Rio de povo 
comprimido por margens
nada plácidas
nada complacentes
nada
comprime o rio totalmente

Quando matar se ensina no colégio
policial impõe respeito
assassinando com pose de herói
Soturno coturno que espanca
Vivo, o Pinheirinho queima
Os olhos ardem tanto
que fica impossível fechar
A não ser que você queira

Quando sobreviver é um sortilégio
é preciso cobrir de latão o peito
e se entregar à luta desigual
pintura moderna da desigualdade
aquarela dissolvida em sangue
Balas perdidas não assustam
Espantam as balas encontradas
na cabeça no pé no peito na alma
até de mulheres e crianças em fuga

Quando resistir é um sacrilégio
ser pobre é um defeito
Seis mil invasores
seis mil bandidos
seis mil criminosos
que denunciam
a criminosa mídia que deturpou
a criminosa justiça que ordenou
o criminoso grupo político que acatou
a criminosa polícia que executou
o criminoso capitalismo que os criou
o crime nosso de deixa-lo vivo
e procriando

--

 São José dos Campos, 22 de janeiro de 2012


Bárbarie...

sábado, 21 de janeiro de 2012

Miradas del Che

Miradas del Che
(Lucas Bronzatto)

Da escola de La Higuera você me olha
com olhar parado de bala
de boina atravessada
Viaja quilometros pra me lembrar
que não deve haver fronteiras
além das cordilheiras e rios
que nos unem
Seu olhar assustado denuncia:
Fronteiras ajudam a assassinar
revolucionários sem fronteiras

De Santa Clara você me olha
de um rosto de bronze, de urna
que guarda suas órbitas, seus ossos
Me lembra da conversa que tivemos aí
Silencioso monólogo
em sua querida presença
renovadora de convicções
Seu olhar calado questiona
em qual urna depositei as convicções renovadas
os estudos sobre marx
e todas as lutas que prometi fazer

Do palanque da Assembléia da ONU você me olha
numa brevíssima pausa de respiro
entre um disparo e outro de palavras de seu discurso
Seu olhar convicto me convida
a escrever nossa própria História 
a descarregar fusis de ideias todos os dias
a alimentar o espírito revolucionário
e não deixar as indignações mais profundas
morrerem de fome todos os dias

Das camisetas que passam você me olha
Quanto mais desfigurado
debochado e irreconhecível está seu rosto
mais forte é seu chamado,
seu pedido de ajuda
Seu olhar inspirador anda triste
Olhos cansados de quem tenta e não consegue
atravessar as selvas de peles e pulmões
(quase todos mais sadios que o seu)
pra montar acampamento nos corações outra vez

--

Um excelente filme, inspirador desse poema: http://www.youtube.com/watch?v=5hpVI3JoobU
E um post do blog do Silvio Rodriguez, concidentemente ou não, dessa mesma semana:
http://segundacita.blogspot.com/2012/01/che-desde-la-memoria.html