quarta-feira, 14 de março de 2012
20:00
20:00
(Lucas Bronzatto)
Os olhos sempre ávidos de belezas
hoje não querem ver
Os ouvidos fazem-se de surdos
e as músicas não tocam a alma
Uma barreira de cílios invisíveis
impede que o aroma das flores
da brisa e do incenso invadam
A boca hoje não gosta
nem sente nenhum gosto
muito menos o insosso
do que preparo a contragosto
Se tivesse alguém
ou algo além do concreto para tocar
só sentiria dormência
Nem a inesperada presença da lua
brilhando no cinza imenso
consegue iluminar
Um livro talvez salve
O verso escorre, escapa
a palavra voa, viaja longe
a letra gira, pula
letra gira pula
letra gira pula
letargia pura
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Minha coleção
Minha coleção
(Lucas Bronzatto)
Nem selos nem latas
nem borboletas nem notas
nem discos de vinil
Coleciono, há um bom tempo,
nostalgias
E como são boas de colecionar!
Grande variedade de objetos
fáceis de encontrar por aí
Algumas das peças raras
de valores inestimáveis
são as mais simples de se obter
Arquivadas vivas,
não requerem técnicas de dissecação
nem minúcias de conservação
Não ocupam espaço
Não precisam de caixas,
alfinetes, plásticos, estantes,
nem nada que as prenda,
pois a razão de ser da coleção
é o momento em que escapam
voando de seu lugar no tempo
atraídas por uma música,
um cheiro, uma cena
um lugar, um poema
um gosto, uma brisa
uma piada, uma careta
um rosto inacreditavelmente parecido
um trejeito, um sotaque
Minha coleção de nostalgias,
essa fonte inesgotável de sorrisos inesperados,
é o jeito de fazer ficar
todo mundo e
todo o mundo que passa
(Lucas Bronzatto)
Nem selos nem latas
nem borboletas nem notas
nem discos de vinil
Coleciono, há um bom tempo,
nostalgias
E como são boas de colecionar!
Grande variedade de objetos
fáceis de encontrar por aí
Algumas das peças raras
de valores inestimáveis
são as mais simples de se obter
Arquivadas vivas,
não requerem técnicas de dissecação
nem minúcias de conservação
Não ocupam espaço
Não precisam de caixas,
alfinetes, plásticos, estantes,
nem nada que as prenda,
pois a razão de ser da coleção
é o momento em que escapam
voando de seu lugar no tempo
atraídas por uma música,
um cheiro, uma cena
um lugar, um poema
um gosto, uma brisa
uma piada, uma careta
um rosto inacreditavelmente parecido
um trejeito, um sotaque
Minha coleção de nostalgias,
essa fonte inesgotável de sorrisos inesperados,
é o jeito de fazer ficar
todo mundo e
todo o mundo que passa
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Palavras ao Invisível
Palavras ao Invisível
(Lucas Bronzatto)
Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
cortassem seus pulsos
e jorrasse toda a Coca-Cola
e o petróleo
que correm em seus veias
até não sobrar gota negra nenhuma
para contar sua história
Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
arrancassem seus dedos
pra que não conseguisse mais segurar
os comprimidos
que discretamente coloca nas bocas
para calá-las
Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
apertassem com força as gravatas
de todos os seus filhos prediletos
Estilhaçassem os vidros
de todos os prédios empresariais
de todas as salas de chefes
com seus recursos desumanos
e deixassem em cacos
todas as consciências opressoras
Que implantassem pesadelos nelas
Terríveis pesadelos
que estrangulassem ainda mais as gargantas
no dia seguinte
Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
incinerassem todas as televisões e rádios
todos os jornais e revistas
que servem somente ou sutilmente a você
Que virassem crime o estupro de verdades
e o fomento à guerra
contra nós mesmos
Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
mostrassem pra todo mundo
inclusive pra mim
que só palavras não bastam
pra te aniquilar
(Lucas Bronzatto)
Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
cortassem seus pulsos
e jorrasse toda a Coca-Cola
e o petróleo
que correm em seus veias
até não sobrar gota negra nenhuma
para contar sua história
Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
arrancassem seus dedos
pra que não conseguisse mais segurar
os comprimidos
que discretamente coloca nas bocas
para calá-las
Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
apertassem com força as gravatas
de todos os seus filhos prediletos
Estilhaçassem os vidros
de todos os prédios empresariais
de todas as salas de chefes
com seus recursos desumanos
e deixassem em cacos
todas as consciências opressoras
Que implantassem pesadelos nelas
Terríveis pesadelos
que estrangulassem ainda mais as gargantas
no dia seguinte
Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
incinerassem todas as televisões e rádios
todos os jornais e revistas
que servem somente ou sutilmente a você
Que virassem crime o estupro de verdades
e o fomento à guerra
contra nós mesmos
Queria que minhas palavras
quando lidas em muitas vozes altas
mostrassem pra todo mundo
inclusive pra mim
que só palavras não bastam
pra te aniquilar
sábado, 28 de janeiro de 2012
Pinheirinho
Pinheirinho
(Lucas Bronzatto)
Do rio que tudo arrasta
se diz que é violento
Mas ninguém diz violentas
as margens que o comprimem
(Bertolt Brecht)
Quando morar é um privilégio
ocupar é um direito
Retumba o brado
do povo heroico do Vale
Rio de povo
comprimido por margens
comprimido por margens
nada plácidas
nada complacentes
nada
comprime o rio totalmente
Quando matar se ensina no colégio
policial impõe respeito
assassinando com pose de herói
Soturno coturno que espanca
Vivo, o Pinheirinho queima
Os olhos ardem tanto
que fica impossível fechar
A não ser que você queira
Quando sobreviver é um sortilégio
é preciso cobrir de latão o peito
e se entregar à luta desigual
pintura moderna da desigualdade
aquarela dissolvida em sangue
Balas perdidas não assustam
Espantam as balas encontradas
na cabeça no pé no peito na alma
até de mulheres e crianças em fuga
Quando resistir é um sacrilégio
ser pobre é um defeito
Seis mil invasores
seis mil bandidos
seis mil criminosos
que denunciam
a criminosa mídia que deturpou
a criminosa mídia que deturpou
a criminosa justiça que ordenou
o criminoso grupo político que acatou
a criminosa polícia que executou
o criminoso capitalismo que os criou
o crime nosso de deixa-lo vivo
e procriando
--
São José dos Campos, 22 de janeiro de 2012
e
Bárbarie...
sábado, 21 de janeiro de 2012
Miradas del Che
Miradas del Che
(Lucas Bronzatto)
Da escola de La Higuera você me olha
com olhar parado de bala
de boina atravessada
Viaja quilometros pra me lembrar
que não deve haver fronteiras
além das cordilheiras e rios
que nos unem
Seu olhar assustado denuncia:
Fronteiras ajudam a assassinar
revolucionários sem fronteiras
De Santa Clara você me olha
de um rosto de bronze, de urna
que guarda suas órbitas, seus ossos
Me lembra da conversa que tivemos aí
Silencioso monólogo
em sua querida presença
renovadora de convicções
Seu olhar calado questiona
em qual urna depositei as convicções renovadas
os estudos sobre marx
e todas as lutas que prometi fazer
Do palanque da Assembléia da ONU você me olha
numa brevíssima pausa de respiro
entre um disparo e outro de palavras de seu discurso
Seu olhar convicto me convida
a escrever nossa própria História
a descarregar fusis de ideias todos os dias
a alimentar o espírito revolucionário
e não deixar as indignações mais profundas
morrerem de fome todos os dias
Das camisetas que passam você me olha
Quanto mais desfigurado
debochado e irreconhecível está seu rosto
mais forte é seu chamado,
seu pedido de ajuda
Seu olhar inspirador anda triste
Olhos cansados de quem tenta e não consegue
atravessar as selvas de peles e pulmões
(quase todos mais sadios que o seu)
pra montar acampamento nos corações outra vez
--
Um excelente filme, inspirador desse poema: http://www.youtube.com/watch?v=5hpVI3JoobU
E um post do blog do Silvio Rodriguez, concidentemente ou não, dessa mesma semana:
http://segundacita.blogspot.com/2012/01/che-desde-la-memoria.html
(Lucas Bronzatto)
Da escola de La Higuera você me olha
com olhar parado de bala
de boina atravessada
Viaja quilometros pra me lembrar
que não deve haver fronteiras
além das cordilheiras e rios
que nos unem
Seu olhar assustado denuncia:
Fronteiras ajudam a assassinar
revolucionários sem fronteiras
De Santa Clara você me olha
de um rosto de bronze, de urna
que guarda suas órbitas, seus ossos
Me lembra da conversa que tivemos aí
Silencioso monólogo
em sua querida presença
renovadora de convicções
Seu olhar calado questiona
em qual urna depositei as convicções renovadas
os estudos sobre marx
e todas as lutas que prometi fazer
Do palanque da Assembléia da ONU você me olha
numa brevíssima pausa de respiro
entre um disparo e outro de palavras de seu discurso
Seu olhar convicto me convida
a escrever nossa própria História
a descarregar fusis de ideias todos os dias
a alimentar o espírito revolucionário
e não deixar as indignações mais profundas
morrerem de fome todos os dias
Das camisetas que passam você me olha
Quanto mais desfigurado
debochado e irreconhecível está seu rosto
mais forte é seu chamado,
seu pedido de ajuda
Seu olhar inspirador anda triste
Olhos cansados de quem tenta e não consegue
atravessar as selvas de peles e pulmões
(quase todos mais sadios que o seu)
pra montar acampamento nos corações outra vez
--
Um excelente filme, inspirador desse poema: http://www.youtube.com/watch?v=5hpVI3JoobU
E um post do blog do Silvio Rodriguez, concidentemente ou não, dessa mesma semana:
http://segundacita.blogspot.com/2012/01/che-desde-la-memoria.html
domingo, 11 de dezembro de 2011
O Acrobata do Semáforo
O acrobata do semáforo
(Lucas Bronzatto)
eu sou o acrobata do semáforo
e do banco da frente você finge que não me vê.
dou discretas batidas em seu vidro
e você se contorce, agarrando-se a um cinto
que te livra do mal e te salva sempre que você freia
bruscamente qualquer início qualquer indício de culpa
e responsabilidade pelo que vê.
e responsabilidade pelo que vê.
deixo para os segundos finais do meu espetáculo,
para que leve embora, meu rosto
triste, miúdo de quem teve
qualquer lugar para chegar arrancado do caminho.
leve-o para onde deve ir. seu desejo de comprar
aquele fogão com acendedor automático
aparentemente queima meus olhos suplicantes
e meu grand finale não afeta seu trajeto.
apenas te vejo partir, acelerando
provavelmente em direção às gotas
de seu calmante químico e sua nova tela
de cristal líquido, que liquefazem seus dias
e te deixam com essa estúpida sensação
de que sem pílulas e produtos perecíveis
você talvez corte os pulsos
cuidando para não sujar o estofado novo.
eu sou o acrobata do semáforo e do seu cômodo sofá
você não me vê mais. respiro agora o ar
que está fora deste chassi quase blindado
que nos separa. faço minhas acrobacias
no seu vazio interno, aquele que você não quer ver
e que os donos de caixas eletrônicos
e de empresas de nomes estrangeiros e alfanuméricos,
publicitários e jornalistas comprados
não querem que você veja.
sou parte desse enigma, dessa esfinge
que silenciosamente atormenta sua paz fictícia.
fictícia, diga comigo: fictícia.
Em setembro de 2011, no Tantas Letras, recebemos a visita do poeta Carlos Augusto Lima (http://memoriaeprojeto.wordpress.com/), que entre outras grandes contribuições, nos deixou com a tarefa de escrever um poema inspirado em um dos poemas de seu livro "Manual de Acrobacias". Escrever o nosso próprio acrobata. No blog dele tem os vários acrobatas que já foram refeitos, espontaneamente pelos seus amigos, ou sugerido por ele, como é o nosso caso. Esse é o meu, versão final até agora, reformulado com sugestões nas oficinas do Tantas Letras e no Zé Lapada. A inspiração veio desse:
eu sou o acrobata do banco de trás
e só você me vê. vou deixar as
duas mãos no vidro e me contorcer
amarrado a este cinto que me livra
do mal, toda sorte ruim, acaso,
quebranto e freadas bruscas. estes
os segundos finais do grande espetáculo,
e só você me vê. vou deixar as
duas mãos no vidro e me contorcer
amarrado a este cinto que me livra
do mal, toda sorte ruim, acaso,
quebranto e freadas bruscas. estes
os segundos finais do grande espetáculo,
até você ir embora, arrancando
com vagar o seu rosto triste, miúdo
como se quisesse chegar a nenhum lugar.
aonde deve ir. os acendedores do fogão
pifaram e estamos sem fósforo. não
tomaremos calmantes naturais, mas ex-
plodiremos com discreta naturalidade.
vou deixar os vidros abertos na esperança
de oxigenar o mundo e para que alguém
me corte os pés e o estofamento novo.
eu sou o acrobata do banco de trás
e você não me vê. o mesmo ar que
respiro não é o seu, pois estamos
separados. entre um passo e outro, uma
espera na fila do caixa eletrônico
com seus enigmas, senhas alfanuméricas,
nossa esfinge possível, um abismo.
um abismo. diga comigo: um abismo.
com vagar o seu rosto triste, miúdo
como se quisesse chegar a nenhum lugar.
aonde deve ir. os acendedores do fogão
pifaram e estamos sem fósforo. não
tomaremos calmantes naturais, mas ex-
plodiremos com discreta naturalidade.
vou deixar os vidros abertos na esperança
de oxigenar o mundo e para que alguém
me corte os pés e o estofamento novo.
eu sou o acrobata do banco de trás
e você não me vê. o mesmo ar que
respiro não é o seu, pois estamos
separados. entre um passo e outro, uma
espera na fila do caixa eletrônico
com seus enigmas, senhas alfanuméricas,
nossa esfinge possível, um abismo.
um abismo. diga comigo: um abismo.
(Carlos Augusto Lima)
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